O hábito silencioso que está drenando sua energia, seu foco e sua paz de espírito.

Você pega o celular para responder uma mensagem.

Se essa situação parece familiar, saiba que você não está sozinho.

Quarenta minutos depois, ainda está rolando o feed, lendo notícias ruins, assistindo vídeos que nem te interessam — e sentindo uma mistura estranha de cansaço e agitação. Você sabe que deveria dormir. Mas não consegue parar.

Esse comportamento tem se tornado cada vez mais comum e recebeu um nome: doomscrolling.

Neste artigo, entendemos o que é, por que acontece e o que fazer a respeito.

O que é doomscrolling?

Doomscrolling é o consumo compulsivo e ininterrupto de conteúdo digital, especialmente notícias negativas e conteúdo emocionalmente intenso, sem conseguir se desengajar. A palavra une doom (catástrofe) e scrolling (rolar a tela). O conceito ganhou força na pandemia, mas o comportamento só cresce desde então.

E vai além de notícias ruins: é qualquer consumo digital que você não consegue interromper, mesmo percebendo que está esgotado(a).

Por que é tão difícil parar?

Não é falta de força de vontade. São três mecanismos agindo ao mesmo tempo:

  • Viés de negatividade: nosso cérebro evoluiu para prestar mais atenção a ameaças. Conteúdo alarmante literalmente prioriza nossa atenção e os algoritmos exploram isso.
  • Dopamina e antecipação: cada novo post libera uma pequena dose de dopamina. Não é o conteúdo que vicia — é a expectativa do próximo. O feed infinito foi projetado para eliminar qualquer ponto de parada natural.
  • Ilusão de controle: quando o mundo parece caótico, buscar informação dá sensação (ilusória) de que estamos no controle. “Se eu ler mais, talvez eu entenda.” Mas a informação nunca é suficiente para resolver uma ansiedade interna.
Você Sabia?
Nosso cérebro processa informações negativas mais rápido e as retém por mais tempo. Esse fenômeno, chamado viés de negatividade, é real e mensurável, e é explorado ativamente pelas plataformas de redes sociais.

O que o doomscrolling faz com você

  • Sono: a luz azul das telas suprime a melatonina e o conteúdo emocionalmente intenso mantém o sistema nervoso em alerta, exatamente o oposto do que o corpo precisa para adormecer.
  • Ansiedade e humor: a exposição crônica a conteúdo alarmante aumenta sintomas de ansiedade e sensação de impotência. O problema não é se informar, é a avalanche sem filtro e sem pausa para processar.
  • Concentração: sessões longas de doomscrolling fragmentam a atenção. O cérebro se acostuma com estímulos rápidos e começa a rejeitar qualquer coisa que exija mais foco.
  • Corpo: tensão muscular no pescoço e ombros, dores de cabeça e fadiga ocular são queixas comuns e, frequentemente, sem que a pessoa associe ao tempo de tela.

Esses sinais não significam, necessariamente, que exista um transtorno psicológico. Porém, podem indicar que sua relação com a tecnologia merece mais atenção.

A relação entre doomscrolling e ansiedade

Existe uma relação importante entre ansiedade e doomscrolling.

Muitas vezes, a ansiedade leva a pessoa a buscar mais informações na tentativa de se sentir preparada ou no controle. Por outro lado, o excesso de informações pode aumentar ainda mais a ansiedade.

É um ciclo que se retroalimenta.

Quanto mais preocupada a pessoa se sente, mais busca conteúdo. Quanto mais conteúdo consome, mais estímulos recebe e mais difícil se torna desacelerar. Com o tempo, isso pode afetar o sono, a produtividade, os relacionamentos e a qualidade de vida de forma geral.

O que fazer para sair desse ciclo?

A resposta não é simplesmente “usar menos o celular”. O doomscrolling tem alguma função: reduzir ansiedade, preencher tédio, evitar algo. A chave está em entender qual função ele tem para você e criar alternativas.

  • Observe seus gatilhos: antes de entrar no loop, o que aconteceu? Tédio? Angústia? Procrastinação? Nomear o gatilho já é o primeiro passo.
  • Crie fricção: retire ícones da tela inicial, use temporizadores, deixe o celular fora do quarto. Um segundo de pausa antes de abrir o app pode ser suficiente para criar consciência.
  • Defina zonas livres: refeições e a hora antes de dormir são ótimos pontos de partida. Comece com um e observe a diferença.
  • Substitua, não apenas elimine: o vácuo precisa ser preenchido. Leitura física, movimento, uma conversa real — qualquer coisa que engaje os sentidos de forma diferente.
Quando buscar ajuda?
Se o uso compulsivo está interferindo no seu sono, humor ou relacionamentos, e as tentativas de mudar por conta própria não funcionam, pode ser a hora de conversar com um psicólogo. Não porque você está com um problema grave, mas porque às vezes estes comportamentos apontam para algo que merece atenção.

Em resumo

Doomscrolling não é fraqueza de caráter. É o encontro entre um sistema nervoso que evoluiu para monitorar ameaças e um ambiente digital projetado para explorá-lo.

Você não precisa deletar suas redes. Precisa de presença a capacidade de estar onde está, de forma deliberada. E isso, diferente dos algoritmos, é totalmente possível de aprender.

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Flavia Meyer, Psicóloga Clinica CRP 06/83936

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