Por Marilia Toledo

Existe uma brincadeira que costumo fazer quando explico o meu trabalho: para produzir teatro, especialmente teatro musical, é preciso carregar dentro de si o médico e o monstro.
A referência vem do clássico de Robert Louis Stevenson, O Médico e o Monstro, mas, no meu caso, essas duas figuras não representam uma luta entre o bem e o mal. Elas simbolizam duas naturezas aparentemente opostas que precisam conviver para que uma obra artística possa acontecer.
O monstro é a criação. É a parte que imagina, questiona, pesquisa, sonha e enxerga possibilidades onde ainda não há nada. É ele que recebe uma inquietação, uma admiração ou o desejo de contar uma história e começa, a partir disso, a construir universos.
O médico é aquele que organiza esse impulso. É a dimensão racional, estratégica e executora do trabalho. É quem planeja, estrutura, negocia, busca recursos e transforma a ideia em uma realidade concreta.
Minha trajetória profissional sempre transitou entre esses dois universos. Sou produtora teatral, dramaturga e diretora dos espetáculos que desenvolvo. Já trabalhei com teatro de prosa, mas, neste momento da minha carreira, tenho me dedicado especialmente aos musicais biográficos, contando histórias de grandes personalidades brasileiras.
E todo processo começa da mesma forma: com uma inquietação.
Antes de existir texto, cenário, elenco ou produção, existe uma pergunta fundamental: por que essa pessoa merece ter sua história contada?
Nos projetos que desenvolvi sobre artistas como Ney Matogrosso, Gal Costa e, atualmente, Cazuza, o ponto de partida foi sempre a admiração. Não apenas pela obra artística, mas pela trajetória, pelas escolhas, pelos conflitos e pela maneira como essas pessoas construíram suas identidades em uma sociedade muitas vezes resistente à diferença.
Ney e Gal são intérpretes que transformaram a forma de cantar e de ocupar o palco. Artistas que escolheram caminhos próprios e deixaram marcas profundas na cultura brasileira. Cazuza, além de intérprete, foi poeta, compositor e uma personalidade cuja trajetória de vida carrega muitas camadas: liberdade, contestação, amor, dor e coragem.
Há também uma dimensão social nessas histórias. Os três são artistas LGBTQIA+ que construíram suas carreiras em períodos ainda mais conservadores e enfrentaram, cada um à sua maneira, uma sociedade marcada pelo preconceito. Contar essas trajetórias é também olhar para um Brasil que mudou, mas que ainda enfrenta a homofobia.
Quando compreendo que uma história precisa ser contada, começa uma nova etapa: a pesquisa. E, antes de qualquer criação, há uma questão fundamental a ser enfrentada: os direitos autorais.
Cada projeto exige uma construção cuidadosa dessa relação com os artistas ou com suas famílias. No caso de Ney Matogrosso e Gal Costa, esse diálogo aconteceu diretamente com eles, Gal ainda em vida. No caso de Cazuza, esse processo envolve sua mãe, Lucinha Araújo.
Com os direitos garantidos, o monstro criativo finalmente ganha liberdade.
É nesse momento que começo a investigar a natureza do espetáculo: qual história quero contar? Qual será o ponto de vista escolhido? Quem serão os personagens? O que é essencial preservar da realidade? E em que medida a dramaturgia pode transformar fatos em emoção, sem trair a essência da trajetória retratada?
Enquanto o monstro cria, o médico trabalha.
Porque um espetáculo não nasce apenas da inspiração. Ele precisa existir como projeto. Precisa de planejamento financeiro, enquadramento em leis de incentivo, apresentação para patrocinadores, negociações, escolha de teatros adequados e uma estratégia para que aquela obra encontre seu público.
A arte também precisa de gestão.
Um espetáculo precisa ser sustentável. Precisa equilibrar recursos públicos e privados, analisar riscos, construir uma operação profissional e compreender que uma grande obra artística é também um empreendimento coletivo, que envolve centenas de profissionais e movimenta uma cadeia inteira de trabalho.
Depois da dramaturgia pronta, começa uma nova fase criativa: a montagem.
É o momento de escolher o elenco, realizar audições, selecionar artistas e reunir uma equipe capaz de traduzir aquela visão inicial em uma experiência completa. Entram em cena cenógrafos, figurinistas, coreógrafos, iluminadores, visagistas, sound designers e tantos outros profissionais fundamentais para transformar uma ideia em linguagem teatral.
No teatro musical, cada detalhe comunica.
A cenografia, a luz, o figurino, o som, a movimentação dos artistas e até a forma como o projeto é apresentado ao público fazem parte da narrativa.
Hoje, a comunicação também se tornou parte essencial da criação. As redes sociais, especialmente o Instagram, participam da construção da expectativa do público. A maneira como revelamos a equipe, os artistas envolvidos, as imagens oficiais e a identidade visual do espetáculo também conta uma história antes mesmo da estreia.
Por isso, a escolha de fotógrafos, designers, assessoria de imprensa e profissionais de comunicação precisa estar alinhada ao conceito artístico do projeto.
No fim, percebo que meu trabalho existe exatamente nesse ponto de equilíbrio: permitir que o monstro imagine sem limites, mas garantir que o médico organize esse sonho para que ele possa chegar ao palco.
Um espetáculo nasce da emoção, mas precisa da razão para permanecer vivo.
A criação dá origem à obra. A execução dá a ela a possibilidade de existir.
Talvez o maior desafio — e também a maior beleza — seja justamente esse: conseguir ser, ao mesmo tempo, a pessoa que sonha com mundos que ainda não existem e aquela que sabe como construí-los.

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