Sabe, ando pensando muito sobre meu trabalho, que é a minha missão de vida: conectar saúde, alimentação, prazer e pessoas, espalhar essa combinação mágica pelo mundo.
Cuidar da alimentação de crianças e adolescentes é cuidar do futuro, reduzir riscos de doenças metabólicas. Cuidar da alimentação também é cuidar do meio ambiente, quando escolhemos alimentos com poucos ingredientes, quando priorizamos alimentos da safra ou orgânicos. Cuidar do comportamento alimentar é cuidar e preservar cultura, hábitos e a gentileza com o corpo.
Sinto que, muitas vezes, meu trabalho trava, emperra mesmo, quando vejo que o desafio vai além do que alcanço na consulta. Diversas vezes, o desafio está nas opções de lanches nas escolas, clubes ou academias.
Escuto, com frequência:
“Desisti de mandar uma lancheira nutritiva porque a criança parou de comer e prefere a bolacha recheada do amigo.”
Ou:
“Eu mando, mas ele nunca come. Volta tudo.”
Ou ainda:
“Não tenho tempo nem ideia para preparar algo nutritivo, porque dá muito trabalho.”
De fato, cuidar da alimentação exige um planejamento mínimo, uma estrutura básica na rotina para garantir determinados alimentos, ainda mais quando falamos de comidas frescas, como frutas, verduras e legumes.
A verdade é que não dá para fugir — e nem poderíamos ou deveríamos fugir — desse cuidado. Delegar a alimentação para alimentos de pacotinho, delivery quatro ou cinco vezes por semana ou comidas congeladas de baixa qualidade é um tiro no pé. Alguma hora essa conta chega. E alguns dos principais sinais são a seletividade alimentar, alterações no ganho de peso e alterações metabólicas.
Dentro da minha clínica, tenho me questionado muito: e aí? O que fazemos?
E, cada vez que me faço essa pergunta ou percebo que não consigo alcançar tão longe somente com a consulta, a resposta é clara e já bem conhecida: cuidar da alimentação e da saúde de crianças e adolescentes é uma questão de saúde pública.
Mas, para sermos mais objetivos e direcionados àquilo que eu consigo atingir, acredito que a alimentação de crianças e adolescentes é um cuidado comunitário.
Precisamos fortalecer esse triângulo entre escola, famílias e crianças. Cada um cuidando da sua parte e aprendendo aquilo que precisa desenvolver.
Empatia com a escola
As escolas têm sido muito demandadas para resolver e orientar sobre inúmeros temas. Isso gera uma sobrecarrega e cria uma expectativa de que sejam especialistas em tudo.
A alimentação é apenas mais um tema complexo. É preciso garantir uma alimentação nutritiva, promover inclusão, lidar com seletividades alimentares específicas, respeitar hábitos e a cultura de cada família.
Muitas famílias enxergam a escola como um espaço para resolver questões que, em casa, não conseguem conduzir. Isso acaba aumentando as críticas e exigências direcionadas à escola.
“Se a escola oferece refeições nutritivas, então não preciso me preocupar tanto com a alimentação em casa.”
Ou:
“Meu filho só come determinado tipo de iogurte ou salgadinho.”
Nesse contexto, quando uma escola decide mudar o padrão alimentar e oferecer opções mais nutritivas, reduzindo ultraprocessados, muitas vezes compra uma briga com famílias que ainda não sabem como lidar com essa mudança.
No fim, cada um joga a bola da nutrição para o outro.
E se estivéssemos no mesmo time?
E pense nos professores e professoras que também enfrentam ou enfrentaram suas próprias questões com a alimentação e, ainda assim, precisam ensinar e incentivar bebês e crianças a comerem melhor, a partir das referências que eles próprios têm.
E se todos recebessem o suporte necessário?
E se essa questão pudesse ser mediada por quem estuda profundamente alimentação e comportamento alimentar? Alguém que pudesse fortalecer esse triângulo e contribuir para uma nutrição mais equilibrada, tanto em nutrientes quanto no ambiente alimentar.
O que ensinamos para as crianças?
Hoje em dia, diferente de tempos atrás, quando uma alimentação nutritiva era mais simples e muito mais acessível, comer bem também faz parte do processo de educação.
Como lidar com os doces? Basta lembrar como as festas infantis são, hoje, decoradas e recheadas de todos os tipos de guloseimas — e ainda saímos com lembrancinhas cheias de balas e chocolates.
Como lidar com os ultraprocessados? Esses pacotinhos que nos fazem querer cada vez mais e adaptam nosso paladar de uma forma que, dependendo da frequência de consumo, pode nos fazer perder o interesse por uma fruta.
Quais alimentos fazem parte do nosso dia a dia e quais deveriam aparecer apenas de vez em quando?
Em um mundo de delivery, frituras e molhos gordurosos podem fazer parte da rotina quase todos os dias?
E, na escola, onde muitas oferecem sucos, chás de latinha e doces, a criança pode escolher comer somente isso?
Será que ela entende que a alimentação interfere na concentração, no aprendizado, no desempenho escolar? Ou aquilo continua sendo visto apenas como “um lanchinho”?
O corre das famílias
Com jornadas de trabalho cada vez mais intensas, menos suporte para cuidar da casa e da comida, trânsito, reuniões, crianças cansadas e adultos exaustos, chegar em casa e ainda preparar o jantar nem sempre é simples.
Nessa hora, o delivery ou qualquer lanche rápido parece muito atraente.
Também parece prático delegar parte da alimentação para a escola, quando a criança faz refeições lá, ou enxergar o lanche escolar apenas como um lanchinho qualquer, sem grande impacto na saúde.
Mas… o que estamos ensinando para as crianças?
Ao invés de julgar ou criticar, a ideia aqui é oferecer suporte. Quase como dizer: “Dá aqui que eu resolvo junto com vocês.”
Estou construindo uma solução para todos os integrantes desse triângulo, de modo que famílias, escolas e crianças tenham mais alívio, consciência, informação e praticidade, sem perder de vista o objetivo essencial: promover saúde por meio da alimentação.
Então, quando compartilho meu descontentamento por perceber que existe um limite até onde a minha clínica consegue chegar, também compartilho uma certeza: acredito que esse limite será rompido em breve.
E volto aqui para contar para vocês.
Minha intenção com esse texto é trazer uma reflexão e abrir uma conversa.
Me conta: como você enxerga as responsabilidades das famílias, da escola e das crianças? Qual é o seu maior desafio? E sua maior dúvida?
@carolbourrol.nutri